Governo do Distrito Federal
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24/11/17 às 9h47 - Atualizado em 30/10/18 às 11h08

Jornal de Brasília: O efeito dominó da desordem

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Do Jornal de Brasília

 

Ocupação desenfreada no DF compromete o meio ambiente e coloca os mananciais em risco

 

O barulho das águas não nega que ali perto tem um córrego. Mas, em vez de se avistar uma mata exuberante, há entulhos entre uma rua estreita e outra, além de esgoto a céu aberto. Na região, dezenas de famílias encontraram a esperança da moradia. A Vila Cauhy, que fica a 17 quilômetros do centro da capital, é um exemplo de como a ocupação urbana desordenada é um fator complicador para os recursos naturais. É o que mostra mais uma reportagem de série sobre as mudanças climáticas e a crise hídrica no DF.

 

Às margens do Córrego Riacho Fundo, os moradores já descobriram que a natureza fala mais alto. A técnica de enfermagem Michelle Vanessa Moreira, 38 anos, mora há dez anos ali e se lembra exatamente do dia em que o córrego encheu e alagou as casas, no ano passado. “A água vinha até a cintura. Perdemos muita coisa: máquina de lavar, sofá, cama, outros móveis. Teve que ir tudo para o lixo”, relembra.

 

Ela afirma que fazia cerca de oito anos que a região não sofria com um alagamento tão forte. “Antes de mudar para cá, a gente não sabia desse risco”, lamenta. A casa de Michelle está localizada a menos de 30 metros do córrego.

 

A mulher reconhece que parte da responsabilidade é dos habitantes da vila. “É a junção da ação do homem e das chuvas. A maioria das casas não tem esgoto e os dejetos vão para o córrego. As pessoas também descartam entulho lá, como sofá e restos de materiais de construção”, relata.

 

O autônomo José Bernardo, 58 anos, veio do Piauí e mora na região há três anos, mas argumenta que teria procurado outro lugar se soubesse que a área era de risco. “Me falaram que era perigoso, mas eu não tinha noção. Se soubesse que era assim, eu tinha procurado outro lugar para morar. Já é difícil conseguir as coisas, aí água vem e carrega tudo. A gente fica no prejuízo”, comenta.

 

Ele alega ainda que é importante que todos os moradores cuidem do córrego para evitar mais desastres. “Eu não queria morar num lugar de risco assim, mas se é o que tem, eu tenho que cuidar. A gente tem que pensar em todo mundo. Mas nem sempre pensam assim, acham que o córrego é local de jogar lixo”, critica. Após a enchente de 2016, a comunidade se reuniu e asfaltou a via. “Melhorou muito, porque tinha muita lama ou muita poeira. Agora, quando chove, a água não empoça”, completa.

 

Volume da água é pequeno, e não são apenas as invasões que preocupam

 

Brasília não possui nenhum grande rio caudaloso, mas é uma área repleta de nascentes. Por isso, o Cerrado que engloba o DF é conhecido como berço das águas. Somos responsáveis pelo abastecimento das principais bacias hidrográficas do País, além dos reservatórios da capital. No entanto, com a expansão urbana os mananciais estão em risco. A consequência é a diminuição dos volumes dos lençóis freáticos, que, por sua vez, alteram os níveis dos reservatórios que levam água até nossas torneiras.

 

De acordo com a subsecretária de Planejamento Ambiental e Monitoramento, Maria Sílvia Rossi, a malha hidrográfica do DF é extensa. “No entanto, como os nossos rios são cabeceiras de nascente, o volume da água é pouco. Nosso estoque é limitado”, afirma.

 

“Padrão ruim”

 

A questão da expansão territorial do DF, segundo Maria, extrapola os limites entre construções regulares ou irregulares. “É o padrão de urbanização. Mesmo os usos regulares, licenciados, têm um padrão urbano que não é amigo da água. Mas fica pior com a grilagem”, conta.

 

“Nosso padrão é mais espraiado e menos compacto. Mas também não é dizer que Águas Claras está no caminho, porque ali não tem nenhuma estratégica de drenagem. A drenagem é outro problema, porque a água não infiltra no solo, e nós temos aqueles tubulões que a levam para longe. A água não precisa ser levada para longe, ela precisa cair no local”, completa.

 

A ocupação em áreas consideradas regiões de recarga dos aquíferos também é uma preocupação. “É onde a água precisa entrar para recarregar os nossos lençóis freáticos. Os aquíferos são o que garante que mesmo na seca os nossos reservatórios vão ter água. Quando ocupo áreas, principalmente aquelas prioritárias para a recarga, eu estou tampando ali com cimento, asfalto, casas e prédios, e estou impedindo da água entrar. Ela vai fazer o que? Ficar nas ruas. Por exemplo, a zona central de Taguatinga não tem uma área verde. Para onde a água vai? Taguatinga inteira está numa área de recarga”, alerta.

 

Momento de repensar a infraestrutura

 

Segundo a subsecretária de Planejamento Ambiental, Maria Sílvia Rossi, a situação é crítica, mas tem volta. “Não é algo sem solução. A infraestrutura verde tem de fazer parte da urbanização. Não é um mapa do ‘não pode’, a questão é como fazer. É ter uma localização da área verde como parte da estrutura de infiltração. O desenho das vias tem que mudar, a locação dos parques… temos que repensar toda a infraestrutura, olhar as áreas verdes menos como paisagismo e mais como funcionalismo”, alega.

 

Questionada sobre como Brasília poderia alterar o modelo de urbanização, levando em consideração que em algumas áreas não é possível mais expandir, a subsecretária esclarece que está na hora de requalificar as regiões administrativas. “A cidade é igual a um organismo vivo: ela nasce, se consolida, depois envelhece. Em algum momento terá o ciclo de renovação. Por exemplo, o Guará era só casa e agora está se renovando com a construção de prédios. Esse processo acontece de forma espontânea ou induzida. Tem instrumentos na política urbanística para induzir isso com planejamento e a gente não usa. Está na hora de pararmos de expandir e passar a qualificar”.

 

Para ela, não existe uma única solução para todo o Distrito Federal, pois há diversas variáveis em cada região. “De maneira geral, tem que ser algo que agregue valor para todos: meio ambiente, população, setor público e privado. Porque todos vão operar nesse espaço”, conclui.

 

Conforme o Jornal de Brasília mostrou na semana passada, as áreas de risco do Distrito Federal estão em locais de população vulnerável, que ocupou o solo de forma irregular e desordenada. Em 2013, havia 2.051 residências mapeadas em regiões de risco. Quatro anos depois, com aumento das invasões, o número mais que dobrou e são 4.733 unidades, onde vivem 19 mil moradores, em 36 áreas divididas em 18 regiões administrativas.

 

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“Já é difícil conseguir as coisas, aí a água vem e carrega tudo”, lamenta José, morador da Vila Cauhy. Foto: Breno Esaki/Jornal de Brasília.