Governo do Distrito Federal
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8/01/20 às 11h10 - Atualizado em 8/01/20 às 11h11

Negar a realidade não colou no desastre da Austrália

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O ano de 2020 começou com um apocalipse ambiental. O fim dos tempos acontece na Austrália desde setembro, quando a temporada de incêndios florestais adiantou o calendário, fortaleceu-se na primavera mais seca dos registros históricos e assumiu proporções apavorantes. O vídeo de um caminhão dos bombeiros rodeado pelo fogo, visto pela perspectiva de quem está dentro do veículo, não tem precedentes nos filmes-catástrofes do cinema. O som de tudo queimando em volta e a visão das labaredas gigantes são o preâmbulo de uma morte horrenda. O saldo macabro dos incêndios florestais na Austrália, até agora, é de 25 mortos, dezenas de desaparecidos, milhares de propriedades destruídas, danos dramáticos à biodiversidade. Mais de 4 milhões de hectares queimaram apenas em uma região. Morreram cangurus, gambás, cobras. As estimativas das perdas superam 480 milhões de mamíferos, pássaros e répteis. Foram sacrificados milhares de ovelhas e vacas. O drama australiano tem nome: mudança do clima e inépcia governamental.

 

O país que governa queimava havia três meses, mas, mesmo assim, o primeiro-ministro Scott Morrison, 51 anos, líder do Partido Liberal e reeleito em maio, achou oportuno tirar alguns dias de férias com a família antes do Natal e viajar para o Havaí. Voltou com Nova Gales do Sul, onde está Sydney e vivem 8 milhões de pessoas, em estado de emergência pela terceira vez. Na pequena Mallacoota, em Victoria, 4.000 pessoas passaram as festas de fim de ano abrigando-se na areia da praia. Respiravam fumaça e buscavam uns aos outros na escuridão do dia, aguardando o resgate da Marinha.

 

O ocaso dos coalas, os marsupiais nativos da Austrália, é dos mais tristes. Esses doces Yodas da natureza são lentos para fugir das labaredas. Quando o fogo vem, a única coisa que conseguem fazer é subir mais alto nos eucaliptos, o que não é grande coisa diante da força das chamas deste verão. Um artigo publicado em novembro na “National Geographic” dizia que, em 2016, a população de coalas foi estimada em 329 mil indivíduos. É espécie vulnerável, ameaçada pela mudança no uso da terra e a degradação de seu principal alimento, as folhas de eucalipto. Sofre com secas, ataques de cachorros e infecções por clamídia, que, no caso dos coalas, causa cegueira e morte.

 

Em novembro, o resgate de um coala todo machucado em uma estrada em chamas viralizou nas mídias sociais. Um casal o salvou, envolveu o bichinho em uma toalha e o levou a uma clínica. O sofrimento de Lewis, como foi batizado, comoveu meio mundo. Suas queimaduras pioraram e ele não resistiu. Nos últimos dias, o fogo descontrolado em Kangaroo Island, onde se acredita que vivam 50 mil coalas, foi devastador. “Para cada coala que vemos vivo, há outros cem mortos”, disse à imprensa Sam Mitchell, o dono da reserva.

 

Morrison integra o eixo de políticos nacionalistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Rejeitou o pacto mundial sobre migração da ONU por considerá-lo ameaça à segurança nacional e reconheceu Jerusalém Ocidental como a capital de Israel. Seus adversários, do partido trabalhista, apostaram em uma plataforma com foco na mudança do clima. Ele, contudo, preferiu negar o tema e seguir apoiando a energia baseada no carvão. Ganhou nas urnas, mas sua carreira política pode estar virando cinzas.

 

Na volta do Havaí, diante da catástrofe e da ira da população, disse aos australianos que suas políticas ambientais são eficientes e que não havia motivo para pânico. O discurso de negação da realidade surtiu efeito contrário ao esperado e Morrison passou a jogar a culpa nos outros – nos ambientalistas, quem diria. Segundo ele, os verdes não teriam permitido que queimadas preventivas nos parques, prática aborígene para evitar o pior, fossem feitas, argumento logo ridicularizado. Os bombeiros, heróis nacionais da tragédia, também o confrontaram. Disseram ter tentando, repetidas vezes, falar com o primeiro-ministro antes da temporada de incêndios para aumentar seus recursos. Nunca foram recebidos.

 

Reação no Brasil

 

A reação do governo Jair Bolsonaro à tragédia australiana foi rasteira, de apontar dedos. “Aqui no Brasil é difícil entender o silêncio de Emmanuel Macron [presidente francês]. Reações diferentes no que diz respeito ao Brasil. Real preocupação com o ambiente ou a ideologia socialista em questão?”, tuitou o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Os incêndios nas florestas australianas acontecem todo ano. É possível que alguns focos sejam intencionais, incêndios não se concentram ao longo de estradas. A Austrália vive uma seca sem igual – na Amazônia, 2019 foi mais úmido.

 

Um fenômeno climático conhecido como El Niño Índico foi responsável por mais calor e seca na terra dos cangurus. Em dezembro, as temperaturas chegaram a 42°C. Eventos climáticos extremos, temperaturas mais altas e ventos fortes propiciam incêndios assustadores. No site do World Economic Forum, uma notícia mostra como a potência dos incêndios australianos produz tempestades com ventos e raios que fortalecem o fogo ou produzem novos focos. É um monstro que se retroalimenta.

 

Na Amazônia, diz artigo publicado em dezembro pelos pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, o ponto em que a floresta, de tão devastada, pode virar savana, está próximo. O desmatamento na Amazônia brasileira está perto de 20% da mata original. As secas têm sido mais frequentes – em 2005, em 2010, novamente em 2015/2016.

 

Já passou da hora de deixar a ideologia de lado, qualquer que seja, no Brasil e na Austrália. É urgente que os governos aceitem o que dizem os cientistas, adaptem a sociedade para enfrentar os impactos, cortem emissões de gases-estufa e parem de perder tempo.

 

Os bombeiros citados no primeiro parágrafo passaram uma hora naquele inferno. “Jasper, coloque a manta nas janelas”, ouve-se o motorista dizer ao colega ao se dar conta do perigo em que se encontram. Com tecnologia e por milagre, todos dentro do carro se salvaram. Tudo que vivia do lado de fora, não.

 

Fonte: Valor Econômico

https://valor.globo.com/brasil/coluna/negar-a-realidade-nao-colou-no-desastre-da-australia.ghtml